“Hoje não estar na internet, é não existir”

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“Hoje não estar na internet, é não existir”

 

O programa Comércio Digital está em destaque no Jornal de Negócios, que esta semana dedica uma entrevista exclusiva ao Presidente da ACEPI, Alexandre Nilo da Fonseca, numa rubrica especial dedicada a iniciativas e empreendedorismo.

 

 

Como é que surgiu este programa?

Fomos sempre muito centrados no facto de o crescimento da internet implicar que mais portugueses soubessem fazer compras e utilizar a internet. Não servia de nada ter uma excelente oferta se não houvesse procura. Portanto a ACEPI sempre procurou munir-se de dados sobre quantos portugueses compram, o que querem compram e como compram. Uma das coisas que ficou clara que era necessário medir as empresas que estão online e que tem uma presença digital.

 

Mas o digital não se esgota nos portugueses, a grande oportunidade é o facto de existirem a nível global mais de 1,4 mil milhões de pessoas a fazer compras online e, se conseguirmos captar alguns destes compradores, seria muito bom.  Hoje um turista, entre a preparação das suas férias e das suas viagens, a deslocação e o regresso, faz centenas de consultas de vídeos, sites, no seu computador e no seu smartphone. Portanto não chega avaliar quais são as empresas que vendem online, mas também quantas é que estão a utilizar o digital para se dar a conhecer. Não só na venda online mas serem visíveis ou ter ponto de contacto em termos online.

 

Começamos a estudar isto e concluímos que 60% das empresas portuguesas não tinham qualquer presença na internet. Este número surgiu com alguma surpresa porque muitas para as estatísticas europeias falam em pequenas e médias empresas, que têm entre 10 e 250 trabalhadores. No caso de Portugal, 95% das empresas são microempresas, com 1% de grandes e 4% de PME. Quando analisamos as microempresas apareceram-nos os 60% de empresas sem presença no online.

 

Foi nessa altura que começamos a falar com o Governo para montar um programa de comércio eletrónico que abrangesse os setores do comércio e dos serviços. A ideia com o Programa Comércio Digital é que em 18 meses se consigam trazer para o digital cerca de 50 mil empresas.

 

 

E como é que podiam ajudar?

Fomos estudar que empresas eram estas. Portugal é um país de grande capilaridade com muitos pequenos comerciantes e prestadores de serviços, como floristas, lojas de vinhos, cafés, restaurantes, cabeleireiros, etc., que fazem parte do ecossistema de qualquer cidade ou vila portuguesa.

No caso português esses negócios são muito atomizados, com 1 ou 2 pessoas e, muitas vezes, quem está à frente destes negócios é infoexcluído ou tem poucas competências digitais. Existem 22% dos portugueses, cerca de dois milhões de pessoas, que nunca utilizou a internet.

 

Mas nos dias de hoje não estar na internet é não existir. A ideia deste projeto de comércio digital é trazer estas empresas para o mundo digital nem que seja com um site presencial. Por outro lado, a imagem da indústria e do produto portugueses também mudou e se há alguns anos era desprestigiante, hoje ser uma empresa portuguesa ou estar em Portugal é prestigiante. Hoje é um destino de eleição no turismo, o calçado português é um dos mais caros e já muitos setores em que o Made in Portugal é importante.

 

Por isso, não é preciso fazer lojas ponto com mas pode ser ponto pt. Para a pesquisa é irrelevante porque o importante é ter uma presença, é estar nas plataformas como o Google, o Zomato, o Facebook, etc. Esta presença está entre o grátis e o muito barato, e se há uns anos era um questão de custo hoje é uma questão de competências. O grande desafio era como é que levávamos isto para o mercado.

 

 

Como é que reagiram a esse desafio detetado?

A ideia é de que deveria ser uma solução massificada, e que o setor do comércio e serviços era talvez o que mais precisava de uma iniciativa deste género. Foi aqui que a ACEPI fez a sua aposta.

 

 

O que é o básico que tem de se ter para estar online?

É preciso um site, um domínio, um endereço de correio eletrónico. Por isso criamos um Voucher 3 em 1, que permite a 50 mil empresas a criação de um site, um domínio e um e-mail, que são gratuitos durante um ano. Qualquer empresa com CAE de comércio e serviços pode solicitar este voucher.

Este projeto passa também por sessões de informação e formação, e por isso, estamos a fazer um Roadshow por 150 locais onde queremos disseminar esta mensagem com sessões de três horas.

 

É uma oportunidade para captar clientes, não só os que vivem perto mas também os que passam perto e até os que vivem noutros sítios. A ideia de dar conhecer digitalmente o negócio é uma das coisas mais importantes. Até porque permite, em muitos do negócios, oferecer outro tipo de serviços mesmo à clientela mais local através de meios como o SMS, o e-mail, fazer entregas, etc.. Os negócios têm de pensar como podem estender e melhorar a experiência que tem hoje.

 

 

Qual é a expectativa da recetividade deste projeto?

Criamos esta oferta, congregamos uma série de parceiros, mas acima tudo o que fizemos foi encontrar uma série de parceiros locais, desde associações setoriais como a dos cabeleireiros ou das oficinas, até associações regionais e locais de comércio e serviços. Foi muito importante ter esta rede de grande capilaridade que nos ajudam a disseminar esta mensagem, e que são nossos parceiros no programa de Roadshow.

 

Fizemos uma sessão de formação durante dois dias a cerca de 100 pessoas que trabalham nas associações porque podem funcionar como consultores digitais. Aprenderam a fazer o diagnóstico de uma empresa porque apoiar uma florista não é igual a um escritório de advogados ou um restaurante. É importante detetar as necessidades de cada um dos negócios e depois desenhar um conjunto de coisas específicas para cada um dos negócios como criar o site, a presença no Facebook, o que é o SEO, o que são os mecanismos de publicidade digital.

 

A nossa preocupação foi criar nas associações, que vão ser os nossos contactos com o público-alvo, as competências e que sabem ajudar a fazer este projeto. Essas associações têm a responsabilidade de atrair os comerciantes e prestadores de serviços a estas sessões e fazer o acompanhamento.

 

Temos online uma Academia Digital que permite o acesso a pequenos cursos para dar os primeiros os passos e aprofundar um pouco mais esta temática da presença e do marketing digital.

 

 

Qual é o papel dos parceiros?

Os financiamentos públicos a estes programas têm sempre uma componente de investimento privado, que foi sustentada em parceiros privados. Esses parceiros têm normalmente serviços que são complementares do ponto de vista da digitalização como a marketing e publicidade, logística, meios de pagamento, software de gestão. Porque muitas vezes não passa só pela presença digital mas pela incorporação de tecnologias nos modelos de negócio e a desmaterialização da relação com clientes e fornecedores, mas que sejam soluções adaptadas a microempresas. 

 

 

Entrevista publicada na íntegra na edição impressa de 24 de julho de 2019 do Jornal de Negócios, pp. 20-21.

 

26.07.2019

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